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Entrevista com Taiane Santi Martins

Taiane Santi Martins é autora do livro "Mikaia", obra vencedora da última edição do Prêmio Sesc de literatura, na categoria romance.

Tatiane Santi Martins, autora do livro "Mikaia"
Foto por: Davi Boaventura

Taiane Santi Martins nasceu em Vacaria, no nordeste do Rio Grande do Sul. Quando tinha apenas um ano de idade, seus pais se mudaram para um sítio, tornando-se pequenos produtores rurais.


Ela cresceu em meio ao trabalho do campo, lidando com as tarefas da terra, domando seu próprio cavalo.


Começou a escrever no primeiro computador da família, em um "protótipo de word" como ela bem descreve. Suas primeiras histórias eram imprimidas e colocadas em pequenos "livretinhos".


Taiane fez duas faculdades ao mesmo tempo: História e Letras. Tornou-se mestre em Literaturas Estrangeiras Modernas e doutora em Escrita Criativa.


Em 2022, com o seu romance "Mikaia", venceu o Prêmio Sesc de Literatura.


Além de escrever, Taiane também ajuda novos autores em suas trajetórias. Faz leitura crítica, preparação de originais, mentoria e edição de textos.


Está há dez anos à frente da revista Travessa em Três Tempos.


Veja abaixo a entrevista completa com a autora!


Entrevista com Taiane Santi Martins

Tatiane Santi Martins, autora do livro "Mikaia"
Foto por: Davi Boaventura

1. Taiane, você se importaria de contar um pouquinho da sua história pra gente? Onde nasceu, como começou a escrever etc…


Nasci em Vacaria, uma cidade de interior, no nordeste do Rio Grande do Sul. Quando tinha um aninho meus pais se mudaram para a zona rural, sou, portanto, filha de pequenos produtores e me criei no sítio entre as lidas do campo e em cima de um cavalo.


Escrevo desde a infância, criava minhas histórias num protótipo de word do primeiro computador que tivemos em casa, as imprimia e as montava em livretinhos.


Pelo menos é isso que a minha família conta, essa é uma daquelas memórias que adquirimos de tanto ouvir alguém narrar.


Dessa época lembro apenas da tela preta e verde do computador e um pouco da estrutura da linguagem de programação que fazia o Windows DOS funcionar.


O que tenho certeza é que histórias sempre fizeram parte do meu cotidiano, em minha casa minha mãe sempre foi uma grande incentivadora da leitura e se eu me esforçar ainda lembro trechos das historinhas infantis que ela me contava desde a primeira infância.


Tive minha fase fanfiqueira na adolescência, mas se alguém me perguntar nego veementemente e destruí qualquer prova escrita que pudesse me incriminar no futuro.


O que quero dizer é que a escrita sempre fez parte de quem sou, mas por muito tempo foi uma brincadeira. Foi só quando já estava na faculdade, dividindo meu tempo entre os cursos de Letras e História que a escrita como ofício foi tomando forma dentro de mim.


Primeiro, dentro da esfera do curso de História criei uma revista literária chamada Travessa em Três Tempos, o objetivo era explorar, através da literatura conceitos que eu e meus colegas futuros historiadores aprendíamos em sala de aula.


Era um projeto independente, coordenado, editado, diagramado e revisado por mim, contando com a boa vontade dos meus colegas em escreverem textos para cada número.


A ideia deu tão certo que depois do segundo número lançado fomos convidado a transformá-lo em projeto de extensão da qual fui bolsista e responsável pelos três anos seguintes até me formar.


A Travessa hoje comporta outro formato, já desvinculada da academia e mais voltada para o campo da escrita criativa, mas já completamos dez anos de trabalho.


No final de minha primeira graduação, me formei em História seis meses antes de me formar em Letras, meu orientador me chamou e me apresentou o mestrado em Escrita Criativa da PUCRS.


Até então eu não conhecia o programa, lembro dele ter me falado que aquele era o curso perfeito para mim, que ao final eu deveria entregar um produto ficção no lugar de uma pesquisa teórica e que ele ainda queria me ver cursando aquele curso.


Não passei para Escrita Criativa de primeira, mas entrei no programa de pós-graduação em Letras da UFRGS.


Logo no primeiro semestre descobri que UFRGS e PUCRS mantém um convênio e os alunos podem cursas disciplinas em ambas as universidades.


Passei o restante do mestrado me dividindo entre o programa de Literaturas Estrangeiras Modernas da UFRGS e o de Escrita Criativa da PUCRS.


Ao defender minha dissertação já estava aprovada no doutorado na PUCRS e comecei as aula na semana seguinte.


2. Quais foram os maiores obstáculos que você encontrou na sua carreira até agora?


Acho que tive uma grande sorte na vida que é ter uma família que sempre me apoiou, sempre acreditaram em mim.


Passei grande parte da infância dizendo que seria veterinária, faria sentido se o fosse, mas quando chegou a hora do vestibular optei por um caminho completamente diferente e nunca ouvi uma vírgula em oposição.


Isso faz toda diferença, pois não importa o tamanho do obstáculo eu sempre soube que teria apoio.


Nesse sentido, acredito que os maiores tenham sido internos, me tornar escritora foi uma escolha e uma escolha construída. Eu tinha muitas dúvidas.


Cresci ouvindo que no Brasil se lê pouco, que ninguém vive de literatura, e tantas dessas frases que você já deve ter ouvido porque ainda não mudaram tanto assim.


Mas eu também idealizava um pouco a literatura, essa ideia também antiga, e que eu combato, do escritor e sua genialidade.


Isso sem entrar no campo perfil médio do escritor brasileiro: homem, branco, morador do Rio e São Paulo e aquela coisa toda que a gente já sabe, ou já deveria saber.


Precisei me autorizar a escrever, acreditar que eu era capaz e isso quando eu já era doutoranda em Escrita Criativa.


O ambiente da PUCRS é um ambiente privilegiado, além da qualidade do ensino e convívio com pessoas dedicadas a literatura, tive a oportunidade de conhecer muitos dos escritores e escritoras contemporâneos que admiro em palestras, cursos e workshops.


Mas preciso frisar que tudo isso foi possível graças ao investimento público em educação já que não teria condições de ser aluna de uma das melhores universidades privadas da América Latina se eu não fosse bolsista da CAPES.


Na época que entrei na PUCRS nove entre dez alunos tinham pelo menos uma bolsa parcial, o que cobria os custos das mensalidades.


3. Quais foram as obras que mais te influenciaram?


Sou pesquisadora de literaturas africanas. Trabalhei por seis anos com um autor da Costa do Marfim chamado Ahmadou Kourouma, que infelizmente é bem pouco conhecido no Brasil.


É inevitável que ele seja uma das minhas grandes referências, estudei a fundo pelo menos dois de seus romances: O sol das independências e Monné, outrages et défis. Também estudei as obras de Amadou Hampâté Bâ, Mia Couto e José Eduardo Agualusa.


Mais tarde conheci a Chimamanda Adichie, Paulina Chiziane, Ondjaki, Ungulani Ba Ka Khosa, João Paulo Borges Coelho, Buchi Emecheta, Lénora Miano e Igiaba Scego.


4. Pra você, quais são os principais elementos que compõem um bom livro?


Fiz duas oficinas de criação literária, uma com Charles Kiefer e outra com Assis Brasil. Nas duas, as análises dos textos eram divididas em duas esferas: a dos elementos de linguagem e a dos elementos de narrativa.


Vejo qualidade num livro quando encontro um equilíbrio entre essas duas esferas. Para mim a linguagem está a serviço da narrativa, mas uma coisa não se sobrepõe a outra.


Ao ler um romance, por exemplo, o que quero é encontrar uma boa história, ser levada por aqueles personagens.


Tenho um pensamento alinhado a antiga lógica de ouvir histórias à beira de uma fogueira. O que está sendo narrado é importante, e isso está na esfera da narrativa.


Mas a forma como a história está sendo contada pode me aproximar ou me afastar dela. Pronto, entramos no campo da linguagem, é ela que faz com que a história chegue até mim.


5. Em 2022 você ganhou o Prêmio Sesc de Literatura com o livro Mikaia. Você poderia nos contar um pouquinho sobre o livro e também sobre a importância do prêmio Sesc na sua carreira?


Mikaia é parte do que compõe minha tese de doutorado. Trata-se de um romance narrado por múltiplas vozes e que conta a história da personagem que dá título ao livro.


Mikaia é uma bailarina moçambicana, que vive já há vinte anos no Brasil, e perde completamente a memória momentos antes de subir ao palco numa noite de estreia.


Mesmo sem nenhuma referência de si, ela entra em cena e dança. A partir daí a trama se desenrola, numa busca pelo encontro de si mesma e o motivo que a levou a uma amnésia repentina, já que parece não haver nenhuma explicação física para isso.


O fio que conduz a personagem, e quem vai com ela, é o da construção da memória, pois ao mesmo tempo que Mikaia quer lembrar, sua irmã, Simi, lembra muito bem e quer esquecer.


As duas ainda têm uma avó, Shaira, que nos mostra outra maneira de lidar com memórias traumáticas: o silenciamento.


É nessa disputa de como lidar com o passado que a história avança, e nisso, passamos por outros temas como a dança e o corpo, a identidade, a violência e guerra civil moçambicana.


O livro foi publicado pela Editora Record, pertencente a um dos maiores grupos editoriais do país, com ampla divulgação nacional, teve seu lançamento entre a programação do Sesc na Flip, em menos de dois meses teve a primeira edição esgotada e semana passada os exemplares da segunda edição chegaram na minha casa.


Nada disso teria sido possível não fosse o Prêmio Sesc, acho que isso exemplifica muito bem a sua importância.


Não apenas na minha carreira, mas no cenário nacional. Muitos das escritoras e escritores consolidados no cenário brasileiro hoje foram apresentados ao mercado editorial através do Prêmio Sesc de Literatura, em 2023 a premiação completa sua vigésima edição.


São vinte anos de trabalho em prol da promoção da literatura que devem ser celebrados, não apenas por quem venceu o prêmio e teve sua vida transformada por causa disso, mas por todos nós leitores.


6. Um conselho para autores iniciantes...


Quando decidi que meu objetivo profissional era me tornar escritora encontrei na internet uma frase bem ao estilo frases motivacionais de boteco atribuídas à Clarisse Lispector, salvei e coloquei na minha área de trabalho.


Todo escritor profissional já foi um escritor iniciante que não desistiu, ou uma variação qualquer com o mesmo significado.


Há uma coisa interessante em todos os clichês, eles sempre carregam algum tipo de verdade. Esse não foge à regra.


Acredito que o que particulariza um clichê é o uso que fazemos dele, ou nesse caso, como o interpretamos. O "não desistir" aqui não se restringe à persistência necessária numa carreira em que qualquer processo é medido a médio e longo prazo.


Também não se restringe à ideia de insistir, na história, na escrita, na publicação depois de levar um não. Entendo esse "não desistir" atravessado pelo investimento em si mesmo.


Hoje temos muitos recursos disponíveis para quem quer fazer da escrita seu ofício: oficinas literárias, formações acadêmicas, profissionais que trabalham com leitura crítica, grupos de leituras, até aplicativos para manter o foco.


Não desistir, pra mim, também significa me manter aberta às várias possibilidades, aos aprendizados e ao olhar do outro.


Outra coisa que acho que deveria ser extinta é essa ideia que a escrita é solitária, coisa nenhuma, crescemos mais em relação com outras pessoas.


Nem sempre a minha ideia, ou meu texto vão funcionar e isso faz parte do jogo. E nesse sentido, às vezes, insistir é só teimosia.


É na troca com outras pessoas que vou conseguir perceber como meu texto vai ser entendido.


Sim, todas as decisões finais sobre um texto são de quem escreve, mas, muitas vezes se encontra soluções narrativas melhores porque outro alguém apontou que a primeira não funciona. Deve ser por isso que dizem que escrever é reescrever, né?!

 

Entrevista realizada em 05 de janeiro de 2023.

 

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