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Entrevista com Carlos Márcio: vencedor do Prêmio Resistência 2025

Com o livro Racismo: Constante como o Tempo, Carlos Márcio conquista o primeiro lugar na categoria Poesia. Leia a seguir a entrevista completa com o autor.



O Prêmio Resistência é uma premiação literária que tem, entre seus principais objetivos, reconhecer obras de autores negros.


Criado em 2022 pela editora A Arte da Palavra, o prêmio também reconheceu a escritora Bruna Rio Branco, em 2024, na categoria Poesia, com o livro Linhas em Negrito.


No que diz respeito às questões técnicas, um dos diferenciais do Prêmio Resistência é oferecer a publicação da obra inédita sem custos aos autores vencedores, além de contar com um modelo de inscrição online.


O Prêmio Resistência costuma receber obras inéditas nas seguintes categorias: poesia, conto, romance e crônica. As inscrições costumam abrir no início de cada ano.


Entrevista com Carlos Márcio: vencedor do Prêmio Resistência 2025


Como foi o início da sua história de vida?


Sou natural de Sabará, Minas Gerais, e cresci cercado por memórias familiares e pela religiosidade popular. Venho de uma família de classe média — média mesmo: dois presentes por ano, um no aniversário, outro no Natal.


Comida nunca faltou, mas o luxo sempre passou longe. Acho que a maior riqueza da infância foi a liberdade. Brincar na rua, passear sem rumo, atravessar a cidade a pé ou de bicicleta. Tudo que me faz falta daqueles tempos é justamente essa sensação de liberdade — um sentimento raro, que hoje se tornou um tipo de saudade.


Sabará era um cenário vivo, repleto de histórias e contradições. Suas igrejas, obras do barroco brasileiro, carregam séculos de sofrimento. Sempre me intrigou como algo tão belo podia ter sido erguido sobre tanta desumanidade. A arte ali me fascinava, impulsionada também pela forte tradição católica da família. Os ritos inventavam novas histórias, davam sentido ao cotidiano.


Aos 17 anos, por meio de um projeto social na Sociedade Musical Santa Cecília — na época em que o Ministério da Cultura era liderado por Gilberto Gil — fui apresentado ao violoncelo. Era um jovem técnico em informática nos anos 2000, tomado de surpresa pela arte: a música me escolheu e mudou meu caminho.


Como foi o início da sua relação com a literatura?


Minha família não é uma família onde os livros foram algo relevante. Ninguém nunca estava lendo, não havia esta cultura. Entretanto, sempre fui incentivado a estudar. Minha vontade de conhecer mais sobre o mundo veio de programas infantis dos anos 90 da TV Cultura, que me mostravam coisas que eu nem imaginava.


As poesias recitadas pelo Gato Pintado na biblioteca, as bandeiras dos países na lareira onde algum boneco dizia uma frase em uma língua diferente, até os instrumentos dos passarinhos do lustre do Castelo Rá-Tim-Bum me fizeram me inclinar para tudo que não era cotidiano para mim. Programas que fizeram com que eu procurasse as poesias que eu ouvia na tv, na biblioteca de minha escola pública. Lia uma vez ou outra. Lia muito turma da Mônica, mas adorava mesmo era o Chico Bento. Assim foi minha infância, de certo modo, acultural pelo ambiente da realidade das famílias que na década de 90, completar o Ensino Médio significava uma formação.


Acho que o despertar da Literatura realmente veio no começo de minha adolescência quando aos 12 anos, minha professora de português, Regina, daria uma prova sobre o romance “Poliana”. Calhou de o frio de Sabará naqueles tempos me presentear com uma pneumonia e até uma internação. Resultado: Li o livro todo no conforto e no silêncio de um quarto de hospital. O lugar não era nada demais para mim, pois minha mãe Ângela, era secretária na instituição. Já tinha brincado muito nas máquinas de escrever de lá. A comida era ótima!


Desde “Poliana”, comecei aos poucos ir lendo cada vez mais. Me aventurei por “O Cortiço”, mas talvez fosse cedo demais. “Dom Casmurro” aos 14 anos pode ser prejudicial, mas no meu caso, me deixou intrigado e com raiva de Bentinho. Naquela época eu já pensava: “Se ela não traiu, deveria. Que sujeito insuportável.”


A minha antipatia por Bentinho fez-me admirar a figura do escritor e começar a vislumbrar contar histórias. Mas se ser violoncelista foi uma coisa que surgiu de uma oportunidade ímpar e já assustava aos parentes mais ávidos por saber no que o “cdf” da família se formaria para “adevogado” ou médico, imagina escritor. Não havia a menor possibilidade.


Como é o seu processo de escrita?


Diversificado. A poesia sempre foi minha primeira paixão. Escrevia versos para mim mesmo, sobre família, histórias da minha avó. Com o amadurecimento e as experiências da vida adulta, sobretudo o cotidiano do racismo que experenciamos em gestos que só são notados por nós, este tema ganhou muito corpo na minha escrita. 


O Racismo Estrutural incomoda muito porque muitos podem pensar que quando dizemos sobre ele, é uma cobrança. Não é. Otávio Paz em “O Labirinto da Solidão” diz que os indígenas viram as caravelas ancoradas no porto, mas sua cognição simplesmente não conseguia conceber aquela imagem. É exatamente a mesma coisa.


Os pequenos gestos racistas que vivenciamos nos toca de tal maneira que não temos como falar porque a história sempre nos silenciou. Escrever sobre isso foi uma maneira de começar a colocar pequenos tijolinhos nessa edificação para a dignidade negra no Brasil. Construção que já dura 400 anos. Ao menos agora podemos ter alicerces.


Outro ponto sobre minha escrita é o cotidiano. As relações familiares e o que trazemos delas em nós. Há um projeto de outro livro, que versará sobre minha relação com minha Vó, Maria. Uma marca de minha vida. No final da vida dela, era eu quem lutava para que eu ainda fosse uma cicatriz em sua mente que se perdia todo dia. Registrar momentos completamente corriqueiros, mas que dizem sobre alguma vitória sobre o laço que nos unia contra uma doença implacável como o Alzheimer, foi minha reação àquele luto. Um luto que vai acontecendo antes mesmo da última batida do coração. 


O que você sentiu quando soube que era o vencedor do Prêmio Resistência de Literatura?


Uma surpresa recheada de alívio! Fiquei muito contente e agradecido à escolha do júri da editora ARTE DA PALAVRA que acolheu a obra. É um tema muito caro em minha vivência. Saber que consegui fazer o outro sentir minhas palavras, gestos, intenções, mover para onde estava o sentido do texto, é realmente gratificante.


Qual é o tema que você aborda no seu livro e o que te levou a escrever sobre esse tema?


Como dito anteriormente, o racismo. São poesias, crônicas e um ensaio que versam sobre o dia-a-dia. Em cenas duras e frias como os assassinatos “por engano” ao alvo que tem sempre a mesma cor de pele, mas também em cenas de humor que podem ser vistas em qualquer portaria onde alguém é sempre barrado.

 

O livro passeia por épocas. Do embranquecimento da abolição, passando por Leopold II decepando mãos africanas no Congo ao noticiário da TV. A ambição é uma pergunta que os textos terão como premissa:  Há crueldade presente em todos nós e praticada contra diversos grupos étnicos, mas onde a sociedade encontra humanidade?


O livro Racismo: Constante como o Tempo estará disponível em pré-venda em breve no site e perfil da Editora Arte da Palavra. Convido quem quiser se aprofundar nessas histórias e reflexões a garantir seu exemplar —  para compartilhar essa caminhada com vocês.


Uma orientação para os escritores que ainda não ganharam nenhuma premiação ou concurso literário...


Escrever é cotidiano. É hábito. Há pouco, a primeira mulher negra da história de mais de 120 anos da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Gonçalves disse em entrevistas na FLIP que ela reescrevia páginas, em algumas ocasiões, por 19 vezes. Acho que é uma síntese do que eu posso dizer.


Entretanto, os prêmios e concursos literários dão aquela sensação de vazio, porque geralmente divulga-se o nome dos vencedores e você não sabe muito que caminho seguir. Não há classificações de finalistas ou semi, coisas do tipo. Portanto, não tem como se abater por algo que você não sabe. Apenas continue escrevendo. 


Escreva, reescreva, tente uma nova rima, um novo desfecho, mas escolha aquele que você chegue no ponto final e diga: este sou eu! (Com tudo que isso implica).


Considerações finais


Gostaria de agradecer ao Rafael pelo trabalho no “Livros Para Sempre” que também é “culpado” por esta premiação, porque o mercado para escritos tem muitos nevoeiros. Saber dos concursos é um modo que motiva a própria escrita pois planejamos as datas dos concursos, temas. Não que a premiação em si seja o motivo para a escrita, até porque, a escrita vem de nós. Entretanto, pode ser uma força motriz aliada para criarmos cada vez mais histórias e nos aventurarmos em diferentes gêneros.


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