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Entrevista com Vanessa Clasen: vencedora do Prêmio Flipoços Renovagraf para Escritores Independentes

A autora Vanessa Clasen reflete sobre o impacto do 1º lugar no Prêmio Flipoços, os desafios de sua carreira e o papel da escrita como resistência contra o esquecimento.

1. Vanessa, qual parte de você que não existia antes de escrever este livro foi revelada durante o processo de criação?


A escrita deste livro revelou em mim uma espécie de arqueóloga da memória. Antes, eu via a literatura sobretudo como expressão emocional e estética; depois de A Última Guardiã de Camões, passei a entendê-la também como escavação de segredos. Descobri uma necessidade quase visceral de investigar aquilo que foi silenciado — especialmente as vozes femininas apagadas do cânone literário. Ao escrever, percebi que não estava apenas criando uma trama, mas tentando devolver a palavra a quem foi imposto o silêncio. 2. Na sua opinião, ficar em primeiro lugar no Prêmio Flipoços de Literatura Independente mudou a sua escrita ou apenas o olhar do mundo sobre ela? Por medo da rejeição, demorei cerca de doze anos para publicar o meu primeiro livro, Nas sombras da lembrança, que acabou, para minha surpresa, conquistando o 2º lugar no Prêmio Book Brasil. O fato de o meu último romance ter recebido mais uma premiação de tamanha relevância literária me fez enxergar a minha escrita com mais amor e ter a certeza de que preciso continuar escrevendo. Sei que ainda tenho muito a contar e que não posso permitir que os medos me paralisem. Acredito que as premiações não mudaram a essência da minha escrita, mas transformaram o peso e a responsabilidade com que passei a enxergá-la. O reconhecimento do 1º lugar no Prêmio Flipoços Renovagraf para Escritores Independentes, entre quase 300 obras inscritas, me mostrou que histórias intimistas, atmosféricas e literárias também ressoam no coração dos leitores. Talvez o mundo tenha começado a olhar para minha obra com mais atenção, mas, internamente, o que mudou foi a consciência de que minha voz pode ocupar espaços maiores sem precisar abandonar minhas convicções literárias: escrever romances com classificação livre, para toda a família, e carregados de suspense e forte superação psicológica. 3. Na literatura independente, o autor costuma ser a sua própria ponte. Em que momento você sentiu que sua voz atravessou o abismo e finalmente alcançou o leitor? Quando comecei a receber mensagens de leitores dizendo que o meu livro os fez sentir vivos e transbordar sentimentos que pareciam aprisionados e esquecidos. Que a minha literatura os atravessou de uma forma que nenhuma outra havia atravessado antes. Porque, no fim, não buscamos apenas histórias fictícias ou fugas literárias; buscamos reconhecimento emocional. O prêmio foi uma honra imensa, mas esses retornos íntimos dos leitores talvez tenham sido a confirmação mais profunda de que minha voz realmente encontrou eco. De que as minhas garrafas lançadas no oceano da dúvida voltaram com uma mensagem ainda mais potente: “eu te ouvi” — e, por ter sido ouvida, já vale a pena continuar escrevendo. 4. Qual foi a cena ou ideia mais difícil de “abandonar” ou transformar para que a obra chegasse à maturidade que o prêmio reconheceu? Talvez tenha sido me render à ideia de permitir que o leitor tirasse suas próprias conclusões. Parafraseando Marla de Queiroz, sou dessas que se doem por inteiro porque não vivem apenas na superfície das coisas, então eu achava que precisava explicar a minha dor através da personagem. Em determinado momento, percebi que alguns silêncios eram mais poderosos do que respostas completas. Como autora, precisei confiar mais na inteligência emocional do leitor e aceitar que certos mistérios deveriam permanecer parcialmente encobertos — como acontece com a própria memória histórica. Esse amadurecimento foi doloroso, porque nós nos apegamos e sofremos com as cenas que amamos, mas essencial para que o romance respirasse de forma mais literária e menos professoral. 5. Olhando para a sua obra, você escreve para preservar uma memória que está morrendo ou para plantar uma semente que ainda não brotou? Acredito que escrevo para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Há memórias que precisam ser preservadas antes que desapareçam completamente — sobretudo aquelas deixadas à margem da história oficial. Mas a literatura também é semente: ela cria possibilidades de futuro, novas formas de olhar o passado e de compreender quem somos. Se minhas histórias conseguem despertar no leitor a vontade de questionar seus medos, traumas e paradigmas, então talvez alguma semente tenha sido plantada. A Última Guardiã de Camões toca numa ferida latente: a transformação do luto em legado. E essa é uma semente literária que tenho orgulho de plantar. 6. Se este livro fosse a única prova da sua existência para as gerações futuras, qual verdade fundamental sobre a condição humana ele contaria? Que todo ser humano deseja ser lembrado. No fundo, nossas histórias, nossos amores, nossas obras e até nossos silêncios carregam essa tentativa desesperada de ecoar e permanecer. A Última Guardiã de Camões fala sobre memória e legado literário, mas também sobre invisibilidade — sobre quantos nomes da literatura foram apagados para que outros se tornassem eternos. Parafraseando meu livro O mar sempre devolve seus mortos, talvez a grande verdade que o mar devolva seja justamente a tentativa humana de deixar um legado imaterial, como quem lança garrafas ao oceano em busca de respostas. 7. Considerações finais Receber o 1º lugar no Prêmio Flipoços Renovagraf para Escritores Independentes foi mais do que uma conquista profissional; foi um lembrete poderoso de que a literatura independente brasileira pulsa com força, coragem e qualidade estética. Espero continuar escrevendo histórias que unam memória, mistério e sensibilidade humana, criando pontes entre culturas, entre passado e presente, entre o que foi silenciado e aquilo que ainda precisa ser dito. A literatura continua sendo, para mim, uma forma de resistência contra o esquecimento e a solidão — uma travessia profundamente humana de superação, autoconhecimento e esperança. Para saber mais sobre a autora, encontre-a nas mídias sociais, neste link. Entrevista realizada em maio de 2026*

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