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Entrevista com Lucas Der Leyweer, autor de "Vivências de peles negras"

Após ser colocado para fora de casa por ser gay, e viver nas ruas, Lucas Der Leyweer escreve livro contando as dificuldades que viveu.

Lucas Der Leyweer nasceu na cidade de Cacoal, em Rondônia. É escritor e tem dois livros publicados pela editora UICLAP: "Pequenos poemas para grandes corações" e "Vivências de peles negras".


Sua relação com a literatura começou quando ainda era pequeno, através das palavras que escrevia no quadro da sala de aula, ou quando desenhava letras nas paredes do seu quarto.


Lucas também gostava de admirar a sua própria caligrafia, assim como, tinha o hábito de frequentar a biblioteca e reler os livros que gostava.


Naquela época, Lucas era guiado apenas por seu próprio instinto artístico, sem saber ao certo o que significava aquele gosto precoce pelos livros ou, ao menos, sem saber que um dia poderia se tornar um escritor como todos aqueles que ele admirava.


Sua escrita, já naquela época, era real, sobre as coisas que via e sentia, servindo de desabafo para as dores do coração.


Para Der Leyweer, sua escrita era como uma válvula de escape.


No entanto, apesar do gosto pelas palavras, Der Leyweer tinha vergonha do que escrevia e não via em seus textos algo que pudesse compartilhar com o mundo, mesmo sabendo que seria impossível se desvincular da escrita.


Foi Nicy Oliveira, sua professora de português e inglês durante o ensino fundamental, que o incentivou a acreditar mais em seus textos.


Ela dava conselhos ao jovem, motivando-o a seguir adiante. Além disso, Nicy também emprestava livros ao rapaz, assim como, em determinada ocasião, o presenteou com um exemplar de Dom Casmurro; obra escrita por Machado de Assis e um dos maiores clássicos da literatura brasileira.


Lucas Der Leyweer e Nicy Oliveira, Unesc (entre 2017 e 2018).

Nicy Oliveira foi a responsável por apresentar ao jovem as possibilidades que ele desconhecia.


Com o incentivo da professora e com o talento latente em suas veias, Der Leyweer começou a ver os seus trabalhos com outros olhos, passando a ouvir e acreditar na verdade de seu próprio coração.


Entretanto, se por um lado Lucas começava a compreender melhor o talento que tinha, por outro as coisas não iam muito bem, sobretudo em casa, com os pais.


Aos 18 anos de idade, Lucas Der Leyweer foi expulso de casa por ser gay.


Deste momento em diante, por conta própria, sem a ajuda ou o apoio de ninguém, Lucas enfrentou inúmeros desafios nas ruas e nas cidades por onde passou, incluindo questões como fome e solidão.


A trajetória do jovem escritor não tem sido fácil, mas apesar de todas as dificuldades que tem enfrentado, Der Leyweer segue firme em seus propósitos e ideais.


Por conta de sua determinação e talento, em 2021, Lucas Der Leyweer publicou seus dois primeiros livros, ambos de poemas: "Pequenos poemas para grandes corações" e "Vivências de peles negras".


Leia a entrevista completa com Lucas Der Leyweer

1. Lucas, você poderia nos contar um pouquinho sobre você e como foi que você se descobriu escritor?


Eu nasci e me criei no interior de Rondônia, morei lá até aos meus 18 anos, depois me mudei de lá.


Desde de criança eu gostava de escrever, a letra me fascinava. Uma vez meu pai brigou comigo, pois eu escrevia na parede de casa.


Ainda criança, comecei a ler livros de autores desconhecidos na primeira escola onde estudei.


Na adolescência isso só foi intensificando, passei a escrever meus primeiros textinhos em um caderno.


Mas pra mim aquilo não era nada, eu só escrevia por escrever, porque achava interessante. Eu não tinha noção de muita coisa, sabe? Eu era muito inocente. Uma inocência pisada.


Depois de sair de casa passei a escrever em meu primeiro diário. Lá eu contava como era meu dia, como era viver em uma cidade desconhecida, lá eu depositava meus sentimentos mais belos e sombrios.


Era como uma espécie de válvula de escape, ou seja, à primeira vista a minha escrita era mais um desabafo e nela eu me encontrava.


2. O que você quer dizer com "inocência pisada"?


É difícil explicar isso... Mas eu era muito bobinho. Ou me fazia de bobo. Sei lá. Era uma forma que eu encontrava para fugir de mim mesmo e da minha realidade. Eu andava pelo mundo como se tudo estivesse bem.


3. Uma das suas inspirações é a escritora Carolina Maria de Jesus, autora de "Quarto de Despejo" - simplesmente o livro que transformou minha vida -, o que nela e nas obras dela mais te inspira?


Carolina Maria de Jesus, uma ícone! Eu me vejo nela. Uma escritora negra, periférica, que luta contra a desigualdade, contra o racismo, e que tem esperança de um mundo melhor.


As obras dela são simplesmente incríveis. Ela, uma escritora que escreve sobre a verdade, sua escrita é simples, mas uma simplicidade tão funda que fisga o leitor. E eu como escritor, sigo no mesmo ritmo.


4. Agora eu gostaria de falar um pouco sobre as suas obras. Você tem dois livros publicados, certo? Poderia nos contar um pouco mais sobre eles?


Sim, eu tenho dois livros de poemas publicados. O primeiro livro "Pequenos poemas para grandes corações" eu escrevi sem a intenção de publicar.


Eu tinha noção de que minha escrita não era nada comercial, e que ninguém compraria um livro assim.


Então peguei vários poemas que eu já tinha no diário e fiz meu primeiro livro com esses poemas.


Então, por incentivo da minha professora (Nicy Oliveira), eu passei a acreditar mais em meu potencial, e publiquei no ano de 2021.


Nesse mesmo ano comecei a trabalhar no segundo livro de poemas "Vivências de peles negras" publicado no mesmo ano.


Nesses dois livros publicados, eu retrato a realidade que vivi, quando saí de casa. Falo tudo que eu já enfrentei nas ruas das cidades de onde morei e passei.


5. Lucas, quais foram as dificuldades que você encontrou na sua carreira até agora e como tem lidado com elas?


Falta de oportunidade. Tipo, se você não tem nome, você não é ninguém. Eu sei que ser escritor no Brasil não é nada fácil. Sei muito bem disso, mas eu não consigo parar de escrever, eu não me vejo fazendo outra coisa.


Inclusive estou aqui em São Paulo para lançar meu livro, porém estou tendo "ZERO APOIO", eu faço meu rolê sozinho.


Apesar de tudo isso, eu me sinto feliz. A arte me salvou. Estou fazendo realmente o que amo. Sobre ser reconhecido, isto será uma consequência... Continuarei sendo artista do mesmo jeito.


6. Lucas, li na internet uma matéria que falava sobre os desafios que você "...enfrentou nas ruas das cidades que morou." Como foi isso?


Aos 18 anos fui expulso de casa por ser quem eu sou. Desde então eu passei por muitas coisas, sabe, até fome inclusive.


Eu passei por uma cidade chamada Rolim de Moura, a cidade era tão pequena, que sequer meus sonhos cabiam lá.


Depois passei por Vilhena, outra cidade, e tudo se repetia.


7. Você tem quantos anos atualmente?


23 anos.


8. Considerações finais...


Eu gostaria de dizer que a vida é curta demais, e que todos sabem disso. Então, se você puder fazer aquilo que você ama, faça, não deixe para depois, pois o depois é incerto demais. E digo mais, se você tem um sonho, não desista, tente pelos menos. Tentar é graça.


***


Para saber mais sobre Lucas Der Leyweer e suas obras, clique aqui.

 

Entrevista realizada em 03 de abril de 2023.

 

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